Opção pela inércia: consequência da preguiça

Opção pela inércia: consequência da preguiça

Para começar, vale dizer que pessoas de bom senso sempre são, como dizia Millôr Fernandes,  contra quaisquer reformas ortográficas, cujo encaminhamento vem de cima para baixo, mesmo que este ‘cima’ seja qualificado, e principalmente quando o ‘baixo’ é que está no poder.

Antes de novas considerações, é uma situação estranha no mundo moderno que a ortografia de uma língua seja definida por meio de regras oficiais de qualquer dos poderes instituídos. No entanto, parece que o espírito legiferante típico da parte oeste da península ibérica nos deixou marcas profundas. Como gostamos de criar leis, mesmo que seja para não cumpri-las!

Desde 1911, vivemos tentativas de unificação da ortografia portuguesa, sempre, porém, com a intervenção dos governos e suas comissões oficiais. Pode-se, contudo, observar uma coincidência curiosa e que reforça a implicância com as reformas: elas normalmente aconteceram nas ditaduras ou em governos que flertam com práticas antidemocráticas, as quais visam a diminuir a liberdade de opinião e intervêm nos direitos individuais.

O pior é que quem não conhece a evolução das línguas atribui a culpa à gramática e aos gramáticos, que vivem ‘inventando moda’. Quem muda a língua é o próprio povo! Aos estudiosos, e especialmente aos filólogos, cabe, embora às vezes demorem a aceitá-las, acatar, explicar, justificar e nomear tais alterações.

O acordo de 1990, que nasceu de um impulso nacionalista do na época presidente da República José Sarney e foi alinhavado, na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), por José Aparecido de Oliveira e Antônio Houaiss entre outros, chegou ao Congresso e acabou aprovado em 1995, quando o primeiro era outra vez presidente, mas do Senado. Todavia, o governo de Fernando Henrique Cardoso deixou-o parado, talvez por não considerá-lo importante. Parece que tinha outras coisas mais importantes a preocupá-lo, como o fim da inflação, o equilíbrio econômico e a universalização do processo educacional, como disse certa vez o falecido ministro Paulo Renato.

No governo do presidente Lula, com a ideia de que o Brasil deveria ser mais valorizado na Organização das Nações Unidas (ONU), o texto foi ressuscitado e, depois de recuos na maneira estabelecida para a aprovação, quando se trocou a unanimidade pela maioria, violentando a própria semântica da palavra “acordo”, acabou sancionado, ficando cada nação com o direito de estabelecer um prazo de coexistência das regras antigas e novas, até que essas prevalecessem.

O decreto de 29 de setembro de 2008 determinou que, no nosso país, as novas regras vigeriam no primeiro dia de 2009, que as antigas ainda poderiam ser usadas até 2012 e que a Academia Brasileira de Letras (ABL) seria a responsável por dirimir dúvidas e produzir um vocabulário ortográfico oficial da língua portuguesa (VOLP).

Órgãos de imprensa rapidamente instituíram a obediência às mudanças. Na Infoglobo, tudo começou em 5 de janeiro de 2009, primeira segunda-feira do ano, não sem antes providenciarmos cursos onde era necessário. Editoras, já no ano seguinte (2010), deviam começar a imprimir seus livros de acordo com a nova ortografia, conforme recomendação do próprio Ministério da Educação. Os professores de LP atualizaram-se, e as escolas e universidades trataram do assunto com curiosidade e atenção dos alunos.

Enfim, o país de verdade se movimentou para acompanhar a necessidade das mudanças. A ABL, em parceria com a Editora Global, num belo esforço, lançou o VOLP em 19 de março de 2009. Ou seja, o Brasil real e moderno, apesar de não ter sido consultado a respeito das alterações gráficas, mesmo, às vezes, sendo contrário a elas, seguiu todo o enredo e mostrou respeito à democracia e ao espírito republicano.

O professor Evanildo Bechara, maior gramático brasileiro, escolhido guardião do ‘Acordo’, do alto das suas oito décadas de vida, não teve medo de encarar e justificar o novo, conquanto soubesse que haveria críticas de muitos lados, algumas inteligentes, outras tolas, mas ele, pacientemente, se colocou à disposição para ouvir opiniões, responder a elas, quando era possível, e anotar sugestões boas, já pensando que, viva que é, a língua exigiria aperfeiçoamentos e novas soluções, muitas apontadas em obras de bons autores, como a recente “O novo acordo ortográfico – todas as soluções” (2ª.edição), de Manoel Pinto Ribeiro.

Nós, professores de língua portuguesa, procuramos ver tudo o que ali estava, escrevemos esquemas, dicas e resenhas, fizemos observações, realizamos palestras – meu amigo Sérgio Nogueira e eu fomos a vários lugares do Brasil, a escolas, empresas, clubes e outros representantes da sociedade, além de incluirmos a “reforma” no “Soletrando”, do Luciano Huck … É… o país moderno, independentemente de ser contra ela ou a seu favor, esqueceu as divergências e se adaptou logo, embora soubesse que poderia aguardar quatro anos para fazê-lo.

Nas universidades, fez-se um grande esforço para convencer os colegas, mestres de outras disciplinas, a se engajarem na necessidade de escreverem seus materiais didáticos e avaliações na ‘nova ortografia’. E agora…

Somos apanhados meio de surpresa pela vitória da inércia, clara no pedido do Senado e no atendimento da presidência da República. É a vitória de um país preguiçoso, ao qual custou aprender meia dúzia de novidades. Um país oficial, que não conseguiu, em quatro anos, mudar algo tão simples; um país acomodado e senil – aliás, a palavra tem a mesma raiz de Senado, mas – é bom ressaltar – com carga semântica diferente daquela da época dos romanos, quando a idade era referência a algo mais sábio. Um país cuja senilidade, infelizmente, é diferente da do professor Bechara, pronto a evoluir, a estudar, a aprender.

Mas não há problemas: nada perdemos em termos nos adaptado às novas regras, e podemos nos preparar para uma nova reforma ortográfica, que, como antecipou o professor Bechara, virá, com certeza. Afinal, o binômio aprender/ensinar é a parte mais nobre da mente humana, e refletir sobre a língua e suas mudanças é algo que alimenta a inteligência e nos faz crescer, impedindo a nossa fossilização. Finalmente, é acreditar em Drummond, que nos dizia: “Ó vida futura, nós te criaremos!”

(Ozanir Roberti Martins – professor / autor da AUTOCRÍTICA)

Versão integral do texto publicado no Jornal O Globo, no dia 06/01/2013.

2 Responses to Opção pela inércia: consequência da preguiça

  1. Excelente texto, excelente crítica, excelente maneira de fazer-nos refletir! Prof Ozanir Roberti sabe tudo! Que venham as mudanças e que saibamos ser flexíveis para adaptar-nos a elas. Ou, como diria o senso comum: quem fica parado é poste! E ponto final!

  2. Oi professor! Fui a sua aluna no Colégio Santo Agostinho há 15 anos e até hoje guardo o seu livro (Manual de Língua e Redação) com muito carinho! Ele é de grande valia, até hj referencia para mim. 🙂 Que bom te encontrar por aqui!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *