Fenilcetonúricos, contém fenilalanina

A mais recente decisão do Supremo Tribunal Federal no caso do mensalão sobre os tais embargos infringentes refletiu com exatidão a mentalidade do país: Somos um país que protela. Seja através dos incontáveis recursos do sistema jurídico, seja pela exaustiva burocracia para resolver as coisas mais simplórias, fazemos parte de uma nação de procrastinadores.

O ministro Lewandovski resumiu essa tendência, com perfeição, em uma pergunta simples durante uma de suas excitantes discussões com o ministro Joaquim Barbosa.

“Do que temos pressa?”, questionou ao ser incitado a ser menos prolixo em seus comentários em favor dos réus.

 

Bem, política à parte, o assunto que desejo abordar neste post é outro. Uma enfermidade de que muitos ouviram falar, mas sobre qual, creio, nem todos sabem muita coisa: a Fenilcetonúria!

Quem nunca leu nas latas de refrigerante a frase: “Fenilcetonúricos, contém fenilalanina”? Você sabe o que isso significa? Pois bem, vamos lá!

Essa frase nada mais é do que um aviso aos portadores dessa doença. Como se o fabricante do refrigerante dissesse: “Ei, vocês que são fenilcetonúricos, que são portadores de fenilcetonúria, esse produto contém fenilalanina! Não o bebam!”

Mas o que é fenilalanina? E por que quem tem a doença não pode ingeri-lo?

Como gosto de História, e bioquímica é um pouco maçante mesmo pra quem é da área, vou voltar um pouco no tempo a fim de contextualizar a explicação – aos revolucionários anos 1930

Em 1934, o mundo assistiu a alguns eventos importantes. Nesse ano, na Alemanha, por exemplo, as Brigadas de Segurança (SS) de Hitler esmagaram uma tentativa de golpe engendrada por Ernest Roehm – chefe das SA (Seções de Assalto) e seu ex-aliado. O episódio, conhecido como Noite dos Longos Punhais, fortaleceu o líder do partido nazista, que assumiu a presidência do país após a morte de Hindenburg naquele mesmo ano.

O Brasil, na época, também teve sua revolução. Mas, pelo contrário, com algum ganho de civilidade em certos aspectos institucionais. Foi quando, sob o governo de Getúlio Vargas, se promulgou a 2a constituição da República, que estabeleceu ou regularizou o voto direto, a Justiça do Trabalho e  Legislação Trabalhista, a extensão do voto às mulheres e o mandato presidencial de 4 anos.

Bem, ainda naquele ano, enquanto se desenrolavam esses fatos históricos, um médico norueguês chamado Asbjörn Fölling investigava a causa do retardo mental de dois irmãos que haviam nascido normais. A mãe dos pacientes relatou que notara surgir um forte odor na urina dos rapazes quando eles tinham 1 ano de idade, e o Dr. Folling, que também era bioquímico, descobriu que a substância responsável pelo odor deixava a urina com uma cor verde-oliva quando se acrescentava FeCl3 (cloreto férrico). A substância, de nome estranho, era o fenilpiruvato, um ácido (mais precisamente um cetoácido), que deu nome à doença de fenilcetonúria (o sufixo -úria se refere à perda na urina).

Mas o que, afinal, isso tem a ver com a fenilalanina?

A fenilalanina é um dos 20 tipos de aminoácidos que formam as proteínas do nosso corpo. A maior parte da fenilalanina que ingerimos (75%) é transformada em tirosina, um outro aminoácido que o organismo utiliza para fabricar os famosos hormônios da tireoide, além de transmissores cerebrais.

É justamente essa transformação que está defeituosa nos portadores da doença!

O resultado é o acúmulo de fenilalanina, e sua conversão ao fenilpiruvato.

A consequência desse defeito é o retardo mental grave e a baixa expectativa de vida (sem tratamento, a maioria morre antes dos 30 anos de idade). E a terapia é, justamente, uma alimentação pobre em fenilalanina iniciada bem cedo, logo após o nascimento.

Foi essa preocupação de diagnóstico precoce que motivou a adoção da triagem em massa da população através do conhecido ‘teste do pezinho’, que além desse, identifica outros vários distúrbios metabólicos.

Hoje, quase 80 anos depois dos acontecimentos narrados, a Alemanha é um dos países mais desenvolvidos social e economicamente do mundo. Tem instituições fortes e democracia estável.

Na visão de alguns políticos brasileiros, ao contrário, nossa democracia é mercadoria a ser comprada com o suborno de algumas mesadas.

Um estudo mostrou que o Q.I. médio de fenilcetonúricos tratados poucas semanas após o nascimento era de 93, comparado ao Q.I. de 53 daqueles cujo tratamento foi iniciado após 1 ano de idade.

O que isso nos deixa de lição?

Que ter pressa pode fazer toda a diferença!

6 Responses to Fenilcetonúricos, contém fenilalanina

  1. Sidney Frattini disse:

    Texto extremamente inteligente e profundo. O autor merece parabéns.

  2. Maria Celia Frattini disse:

    Uma aula! Parabéns!!

  3. Angela Roberti disse:

    Texto claro, direto e objetivo. Parabéns pela explicação, muito pertinente e oportuna.

  4. Ozanir Roberti Martins disse:

    Perfeito na introdução com a merecida crítica ao STF e a alguns de seus ministros, mais interessados nos compromissos com o poder e a vaidade, mais inclinados a crer na verdade pessoal do que na consciência coletiva e histórica, pertinente na utilidade médica e na condenação do hermetismo de certos termos científicos que não ajudam a prevenção, adequado no lamento à frouxa realidade da formação social brasileira, tudo isso dentro de um texto muito bem escrito com um português que enche de esperança um mestre da língua. Orgulho de tê-lo na família.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *