O que você sabe sobre o colesterol?

Na edição do último domingo, 29/09, o jornal O Globo publicou uma matéria sobre os 25 anos da Constituição de 1988. Aquela que ficou conhecida pelo epíteto dado por Ulisses Guimarães de “Constituição Cidadã”.

Dentre as frases da época citadas no topo da reportagem, há uma interessante de Sebastião de Camargo:

“O que julgo mais urgente é uma política mais humana para que o cidadão sem posse cuide de sua saúde da mesma forma que um cidadão bem situado economicamente.”

Bem… Independente de, até o momento, a nova constituição ter logrado êxito no seu objetivo de tornar a saúde pública mais justa, o post de hoje visa também fazer justiça! Mas a uma substância amiúde pouco compreendida e, não raro, criticada – o colesterol!

 

Molécula do Colesterol

Molécula do Colesterol

É cena comum nos consultórios de clínica médica e cardiologia. Você leva seus exames de rotina e espera, ansioso, o parecer do médico sobre como está seu colesterol, sobre o que deve ou não comer, e o que deve tomar para baixá-lo.

Mas o que é, afinal, o colesterol? O que de fato significa colesterol “bom” e “ruim”? E, mais importante, para que ele serve além de entupir nossas artérias?

A explicação remonta a uma época revolucionária na França, quando Política e Ciência avançavam, cada uma a seu turno, transformando o mundo tal qual se conhecera até então: os anos que se seguiram à ascensão e queda de Napoleão Bonaparte.

Naquelas três primeiras décadas do século XIX, a maioria dos países latino-americanos conquistaria sua independência, em parte como resultado do abalo gerado pelas tropas napoleônicas em suas metrópoles. O Brasil, bem sabemos, conseguiu a sua em 1822. Mas, no ano seguinte, enquanto a dissolução da assembleia constituinte que definiria os rumos do recém-emancipado império gerava a revolta de um certo Frei Caneca, um químico francês chamado Michel Chevreul publicava, em seu país, um importante trabalho sobre a gordura animal.

Michel Chevreul

Michel Chevreul

O estudo, intitulado “Pesquisas sobre os corpos graxos de origem animal” (numa ousada tradução livre!!)  foi onde se citou o termo colesterol pela primeira vez.

A etimologia da palavra provém do grego: Cole, que significa bile, e stereos – sólido, pois foi identificado na forma de cristais nos cálculos biliares (a terminação –ol designa, ainda, um álcool). E isso também explica a curiosa origem de alguns termos.

A bile, na tradição da antiguidade clássica, era um dos 4 ‘humores’ de cujo equilíbrio dependia a saúde do corpo. Acreditava-se que suas variações podiam produzir agressividade ou depressão; donde vieram os vocábulos cólera e melancolia.

Antes, porém, de prosseguir invadindo o terreno dos historiadores e profissionais da língua, vamos às respostas…

O colesterol é um tipo de lipídio (ou gordura) presente na membrana de todas as células do corpo. Apesar da origem de seu nome, ele é essencial para conferir fluidez às membranas.  É a substância que os ovários e testículos utilizam para produzir os hormônios sexuais estrogênio, progesterona e testosterona. Nossas glândulas supra-renais também necessitam dele para produzir hormônios que controlam a glicemia e a pressão arterial – cortisol e aldosterona.

Ele é, ainda, o precursor da famosa vitamina D, tão útil para evitar a fraqueza dos ossos!

Apesar da frequente preocupação quanto ao que devemos ingerir para evitar seu excesso, um pouco menos da metade do colesterol do organismo vem, de fato, da dieta. A maior parcela provém mesmo da produção endógena, e tem correlação com fatores genéticos.  (Mas que isso não sirva de pretexto para a feijoada do próximo sábado!)

Agora vamos à outra questão… A do colesterol “bom” e “ruim”!

O que vulgarmente chamamos de colesterol bom e ruim são, na verdade, dois tipos de partículas através das quais o organismo transporta o colesterol no sangue. O que as diferencia é, basicamente, o tamanho e a densidade.

Por ser uma gordura, o colesterol não é solúvel em água. (E, lembre-se, nosso sangue é composto, sobretudo, por água!). A maneira encontrada para resolver esse problema foi acomodar centenas de moléculas de colesterol dentro de vesículas (como minúsculas bolsas esféricas) chamadas de lipoproteínas, cuja superfície externa fosse solúvel em água!

As LDL (parte “ruim”) que você vê em seu exame de sangue são maiores, tem mais moléculas de colesterol e, portanto, são MENOS densas (razão da sigla em inglês – lipoproteína de baixa densidade); e as HDL (parte “boa”) são menores, têm menos colesterol, e são relativamente MAIS densas que as anteriores (lipoproteína de alta densidade).

Além de moléculas de colesterol, as LDL contêm outros lipídios, como os ácidos graxos, que o requintado leitor talvez conheça pela tradução em francês – gras, do saboroso patê de foie gras (fígado gordo); e o folião pelo tradicional carnaval de Nova Orleans: Mardi Gras (ou 3ª feira gorda)!

Basta dizer, no entanto, que a LDL, quando em excesso, libera parte de seu conteúdo nos vasos sanguíneos gerando a aterosclerose; e que a HDL, com menor teor de gordura, “puxa” o colesterol para dentro de si.

 

Michael Brown e Joseph Goldstein, cujos estudos muito contribuíram para compreendermos o colesterol, disseram em 1985:

“O colesterol é uma molécula com a face de Janus. A mesma propriedade que o torna útil nas membranas celulares, sua absoluta insolubilidade em água, também o torna letal.”

Janus era a divindade romana que deu nome ao mês de janeiro. Representado por duas faces voltadas para lados opostos, ele simboliza o passado e o futuro, e é o deus dos inícios.

Janus, o Deus do Início

Janus, o Deus dos Inícios

Vinte e cinco anos depois, não poderia ser mais atual a preocupação de Sebastião de Camargo. Tal como a dissolução da constituinte que gerou a revolta de Frei Caneca, a Constituição Cidadã permanece tendo seus princípios dissolvidos na realidade da saúde pública do nosso país do futuro; que se mantém preso às mazelas do passado, e que nunca se cansa de reiniciar, mas incapaz de resolver os problemas do agora.

4 Responses to O que você sabe sobre o colesterol?

  1. Sidney Frattini disse:

    Genial. Associa com propriedade. Arremata com maestria.

  2. Ozanir Roberti disse:

    Ótimo texto sobre o colesterol, com excelentes ligações com a história e com a vida prática. A sociedade leitora agradece. Excelente!!!

  3. Sidney Frattini Jr disse:

    É um imenso prazer informar de maneira criativa, e contribuir de alguma forma para a divulgação do conhecimento. Muito satisfatório

  4. Sidney Frattini Jr disse:

    … Receber um feedback positivo de profissionais do ensino. Sobretudo de tal envergadura.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *