Contém ômega 3

“Os peões são a alma do xadrez!”chess

A afirmação acima foi feita pelo enxadrista francês François André Philidor em meados do século XVIII. Philidor é considerado o primeiro dos grandes jogadores que tentou criar uma teoria posicional, calcada numa visão científica do jogo de xadrez. Segundo o grande mestre Garry Kasparov, todos os melhores jogadores de cada época refletiram, em seus estilos, os valores sociais e culturais da época em que viveram.

Philidor viveu, de fato, num período de grandes questionamentos e transformações. Um tempo em que novas luzes foram lançadas sobre certezas historicamente arraigadas, desafiando a autoridade de reis e clérigos, bem como as antigas concepções vigentes das leis que regem a natureza e o universo.

Os reflexos dessa Idade da Razão, o Iluminismo, se fizeram sentir nas várias revoluções que ecoaram no velho e no novo mundo, onde distintos povos e grupos sociais passaram a protestar contra a exploração de que se sentiam vítimas. Na América do norte, por exemplo, os impostos ingleses sobre o açúcar e o selo desencadeariam enorme prurido nas 13 colônias, e resultariam na independência americana em 1776. Na França, em 1789, a mobilização do oprimido 3º estado culminaria na revolução francesa, na decapitação do rei, e na confirmação da força que possui a plebe, parecendo reforçar a exaltação, por Philidor, das peças menos valiosas do jogo.

O Brasil também teve suas revoltas contra a exploração portuguesa, como a conhecida Inconfidência Mineira, deflagrada no mesmo ano da queda da bastilha, em protesto contra os escorjantes impostos sobre as atividades de mineração.

Tão importantes quanto os movimentos sociais e políticos, foram os progressos científicos. Decerto, o Iluminismo lançou sua claridade sobre a própria luz em si. Foi em 1780 que o químico inglês Joseph Priestley fez o primeiro experimento que levou à descoberta da fotossíntese – a conversão de energia luminosa em energia química. Anos antes, o político e cientista americano Benjamin Franklin também dera contribuições a ela em seus estudos sobre a eletricidade.

Benjamin Franklin

Benjamin Franklin

Franklin era mesmo um curioso nato. Em 1773, escreveu a um amigo sobre o efeito do óleo na água, fascinado pela observação de que mesmo uma pequena quantia de azeite se espalhava pela enorme área de um lago, e tirava a agitação causada pelo vento, tornando sua superfície lisa como um espelho.

A característica do azeite que gerava o efeito admirado por Franklin tem correlação com a organização de suas moléculas quando inseridas num meio aquoso: sua insolubilidade em água, ou hidrofobia. E ela também permite compreender a importância, muito repetida por todos, de um nutriente cujo significado quase ninguém sabe – o ômega 3.

Quantas vezes o leitor já ouviu (ou leu) as frases “Contém ômega 3”; “Livre de gordura trans”; “Não contém gordura saturada”; “Contém gordura vegetal”? Você tem alguma ideia do que sejam esses termos? Pois o post de hoje tentará explicá-los…

Tal como o colesterol, os ácidos graxos são um tipo de lipídio presente nas membranas de todas as células do nosso corpo. Há vários subtipos, mas todos se assemelham ao rústico desenho de uma cabeça com duas longas pernas, onde estas são as duas moléculas de ácido graxo, e a cabeça uma molécula com solubilidade em água (ou hidrofílica).

fosfolipido

Cada “perna” de ácido graxo é chamada de saturada quando só há ligações simples entre seus átomos, o que acontece quando ela é “hidrogenada” (átomos de hidrogênio completam as ligações que faltam). Já quando há ‘duplas ligações’ entre os átomos, o ácido graxo é dito INsaturado.

acido graxo

Na gordura saturada, as pernas tendem a permanecer mais retificadas.

Quando a 2ª situação ocorre (gordura insaturada), o(s) local(is) da(s) dupla(s) ligação(ões) pode(m) gerar um ângulo na perna (à semelhança de uma perna torta). Essa é a configuração Cis, em oposição à configuração Trans, na qual a perna se mantém também retificada (como na gordura saturada).

acido graxo4

Antes que o leitor boceje diante de tanta bioquímica, as “pernas retas” da gordura saturada e daquela com formato trans são PREJUDICIAIS às nossas membranas. E você já entenderá o porquê! Vamos antes entender o ômega 3…

Nosso corpo é capaz de fabricar quase todos os ácidos graxos de que precisamos à exceção de dois, que chamamos de “nutricionalmente essenciais”. Um deles é classificado como ômega 3 porque a 1ª dupla ligação (são várias na molécula) fica no 3º átomo de carbono.

Esse importante lipídio está presente em altas concentrações na retina e no nosso cérebro, e é encontrado em óleos de linhaça, de algumas plantas e peixes, bem como na soja. Talvez daí venha o aforismo de que “peixe deixa inteligente”.

omega3

Para finalizar, lipídios INsaturados (como os ômega 3) conferem fluidez às membranas das células, o que é essencial para o transporte de substâncias para dentro ou fora delas, já os Saturados, ou aqueles insaturados com formato trans, cujas “pernas” são mais retilíneas, REDUZEM a fluidez das membranas. Uma analogia simples ajudará a entender a razão disso.

Nos últimos meses, vimos, no país, vários protestos de manifestantes pelos mais diversos motivos. Basicamente, todos pleiteavam mais justiça diante de nossas autoridades que, historicamente, têm se locupletado com privilégios injustificáveis e nos explorado com impostos aviltantes.

Não raro, as manifestações têm descambado para violência franca, com excessos por parte de policiais e reivindicadores.

As gorduras saturada e trans, com suas “pernas  retilíneas”, tendem a se acomodar na membrana celular de maneira mais justaposta, uma ao lado da outra, à semelhança da rígida unidade militar de um pelotão policial que se desloca em bloco; e onde há pouca permeabilidade entre seus membros. Já a gordura insaturada, com seus ômega 3, e “pernas tortas”, não permite uma acomodação tão bem organizada das moléculas, o que aumenta a fluidez e mobilidade entre elas. Como um grupo heterogêneo de manifestantes no qual se infiltram vândalos e Black blocs, tornando a “causa” mais fluida; menos firme.

acido graxo2

Enquanto num caso o resultado é benéfico; no outro, claramente, tira a “alma do xadrez”

6 Responses to Contém ômega 3

  1. Sidney Frattini disse:

    Seu livro vai de vento em popa, permeando, como a molécula boa, o passeio entre a história, a crítica social e o mundo bioquímico e natural, num texto profundo e inteligente, como daqueles autores que comeram bastante peixe. Mas transformaram as palavras em protestos de sabedoria.

  2. Silvia disse:

    Excelente analogia… dá pra entender direitinho o efeito no nosso corpo!!!!! Uma pergunta: vale então a pena tomar suplementos de Omega 3?????

    • Simone disse:

      Não sei a resposta do Sidney, mas eu diria que vale. É um acido graxo importante e que só adquirimos pela alimentação. Não acho que no nosso dia a dia a gente come peixe ou linhaça, por exemplo, suficientes para adquirir bons níveis de ômega 3! Além de tudo, pesquisas serias demonstraram um atraso na progressão da doença de Alzheimer quando o paciente toma esses suplementos.

  3. Sidney Frattini jr disse:

    Embora os lipídios com ômega 3 seja mais encontrado nos alimentos citados, eles não são os únicos. A verdade é que muitas das pesquisas que recomendam suplementação de certos nutrientes são patrocinadas por empresas farmacêuticas que os produzem. “Em adultos sob dieta comum NÃO se observou nenhum sinal de deficiência de ácidos graxos essenciais” afirma o tratado de Bioquímica de Harper, referência na formação médica. Eu recomendaria que em lugar de suplementar ômega 3, você reduzisse sua ingesta de gordura saturada e trans. Isso sim pode fazer diferença porque, conforme o livro citado, os ácidos graxos trans competem com os ácidos graxos cis; ou seja, se a sua ingesta de ambos for alta, não adiantará suplementar ômega 3! Um abraço e obrigado pelo comentário.

  4. Ozanir Roberti Martins disse:

    Mais um excelente texto do Dr. Sidney! É óbvio o que diz o Sidney pai: um belo livro está sendo escrito, reunindo aos pesados assuntos da bioquímica e da medicina comentários bem feitos sobre eventos sociais e políticos; tudo isso recheado com uma dose significativa de conhecimentos históricos e filosóficos. Altíssimo nível! Bem acima da mediocridade geral…

  5. Delma disse:

    Um texto profundo e claro, duas características difíceis para muitos bons escritores ou pesquisadores. Parabéns e obrigada por todas as informações. E já que fazer analogia e passear “ pela cultura, foi um traço forte do seu texto, deixo aqui a
    (nem tanto) minha contribuição . Minha porque a poesia é de todos, nem tanto porque ela, Cora Coralina, é única.

    ANINHA E SUAS PEDRAS
    Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

Cora Coralina (Outubro, 1981)

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