Mais médicos?

MAIS MÉDICOS?

Simone Frattini*

O ensino médico no Brasil teve início tão logo a corte portuguesa desembarcou por aqui. Em fevereiro de 1808, D João VI criou, na Bahia, a primeira escola a ensinar medicina e cirurgia no país. Nove meses depois, nascia mais uma: a Escola Anatômica Cirúrgica e Médica do Rio de Janeiro. Passados 204 anos, em 2012, a USP publicou um relatório sobre avaliação das Escolas Médicas Brasileiras, mostrando que, ao todo, temos 198 instituições ensinando medicina no Brasil, um dos maiores índices do mundo.

Apenas nos últimos 17 anos, foram abertos 96 cursos novos de Medicina. A maioria em instituições particulares. Hoje, elas são mais de 57% do total, cobrando uma média de 4 mil reais por mês de seus alunos. Com o “baby boom” da educação médica no país, era de se esperar que o Ministério de Educação exercesse sua função de órgão fiscalizador e tivesse relativo controle do desenvolvimento dessas novas escolas. Por outro lado, também era de se esperar que o MEC não abandonasse o cuidado e a atenção em relação às antigas e já renomadas instituições.

Era de se esperar… Mas nós nos acostumamos a esperar demais. E receber de menos.

É óbvio que o MEC não estava cuidando do Ensino Médico como deveria. Não percebia o risco de morte de uma das mais tradicionais escolas médicas do Rio de Janeiro: a Universidade Gama Filho, fundada em 1939 e responsável por formar novos médicos desde 1965. Ao voltar os olhos somente para o novo, bebês que nasciam fortes e saudáveis, esquecia o cuidado com as instituições mais antigas, que respiravam por aparelhos.

Fossem médicos, os responsáveis pelo MEC ouviriam o bip-bip, tão comum nos nossos CTIs, falhando peremptoriamente. A Universidade Gama Filho começou a dar indícios de falhas internas no final de 2011. Alunos manifestaram-se, funcionários idem. O MEC, que, além de não ser médico, não preza pelo cuidado, não se mexeu. Os sintomas estavam todos lá. A infecção começava a se alastrar, e a morte seria questão de tempo. Se o MEC fosse um médico, teria percebido a gravidade do caso e poderia salvar a tempo a vida de quem ele deveria estar cuidando.

Ao longo de 2012 e 2013, enquanto estava em pauta a contratação de médicos estrangeiros para suprir a necessidade de mais profissionais da área no Brasil, cerca de 2 mil acadêmicos do curso de Medicina da Universidade Gama Filho lutavam para dar seguimento aos seus estudos, em uma instituição que vinha definhando, visivelmente. Professores competentíssimos e renomados, funcionários extremamente dedicados e fiéis à história do seu local de trabalho mantiveram a universidade de pé, sabe-se lá como. Sem a assistência necessária, ou seja, a atenção do MEC, tanta vontade de sobreviver não bastaria.  

Se precisamos de mais médicos, principalmente bons médicos, por que não cuidar dos nosso acadêmicos de Medicina? Por que importar médicos de outros países? Por que criar mais vagas? Fosse o MEC um médico, saberia que não se cobre um machucado profundo com um band-aid. Dependendo do tamanho da lesão e do dano, não adianta importar, de outros países, gaze e linha de sutura. Há que se fazer uma cirurgia. De outro modo, a lesão continua lá. E dói e mata do mesmo jeito.

Em 08 de julho de 2013, o Ministério da Saúde lançou o Programa Mais Médicos. Com os olhos voltados à necessidade – real – de levar assistência à saúde a milhões de brasileiros carentes. Com a contratação de profissionais estrangeiros, espera-se suprir momentaneamente uma demanda reprimida. Com a formação cuidadosa, assistida e adequada de médicos brasileiros, seria possível suprir esta demanda eternamente.

Não cabe mais perguntar por que se contratar médicos estrangeiros e criar novas vagas nos cursos de Medicina quando não há um cuidado e uma preocupação com aqueles que estão em vias de se formar médicos, alunos entre o primeiro e o sexto ano de formação médica.

Não cabe perguntar, porque não há resposta satisfatória.

E , ainda assim, precisamos de mais médicos.

Em 12 de dezembro de 2013, foi autorizada, por meio da Política Nacional de Expansão das Escolas Médicas, a abertura de 560 vagas para cursos de Medicina. Até 2017, serão abertas 11.447 vagas em instituições públicas e privadas. O baby boom continuará, sem a menor garantia de que estas novas possibilidades serão bem alimentadas, bem cuidadas, bem nutridas. Criar vagas no ensino superior não é tão complicado assim. Difícil é manter a qualidade deste ensino. É ter certeza de que a educação médica no país está crescendo forte e saudável. Ao que tudo indica, não está.

Fosse o MEC um médico, saberia que não basta colocar um filho no mundo. É preciso cuidar, alimentar, dar vacina, e, de vez em quando, levar ao pediatra, para ter certeza que ele está se desenvolvendo bem e com saúde. Mas o MEC não é médico. O MEC não entende nada de Medicina.

Aliás, ao que tudo indica, o Ministério da Educação e o Ministério da Saúde são partes de um todo, mas que não se entendem muito bem. Enquanto um diz “mais médicos”, o outro abandona os futuros médicos, acadêmicos prestes a se formar e a iniciar uma carreira na Medicina, em um país que insiste em gritar: “mais médicos”. Fosse o MEC um médico, de qualquer área, ele entenderia que, se uma população grita que precisa de remédio, não adianta vir com placebo. Uma vez, li que quem tem fome, tem pressa. Quem está morrendo também. Os primeiros 10 minutos num atendimento de emergência fazem toda a diferença na sobrevivência do paciente.

Ainda bem que o MEC não é médico. A esta altura, nós, estudantes de medicina da Universidade Gama Filho, já estaríamos todos mortos. 

 

*Artigo publicado no jornal O GLOBO, seção Opinião, no primeiro caderno, pág. 13. Segue aqui o texto integral.  

2 Responses to Mais médicos?

  1. Sílvia Martins disse:

    É fácil entender a razão de o seu texto ter tido mais de 3 mil recomendações a partir do site do jornal! Ele mistura a emoção com a lógica… E num texto gostoso de ler! Parabéns!!!!!! E espero que a solução, além de vir logo, seja muito boa pra você!

  2. Simone disse:

    Ai, meu Deus!! Espero mesmo que a solução venha e seja a melhor possível!

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