Sobre gigantes e anões

Nascido no fim da 1ª Grande Guerra, em 1918, e falecido no fim do ano passado aos 95 anos, ele foi ganhador do prêmio Nobel, e contribuiu, indiscutivelmente, para o progresso humano no século XX.

Se à mente do leitor veio a figura de Nelson Mandela, deve saber que a descrição também se aplica ao bioquímico Frederick Sanger. Ambos nasceram no mesmo ano de 1918 com diferença de 1 mês (Mandela em julho, Sanger em agosto), e faleceram em 2013, igualmente, em meses consecutivos (Sanger em novembro, Mandela em dezembro). Mandela foi laureado com o Nobel da Paz em 1993. Sanger com o de química por duas vezes – em 1958, quando determinou a sequência peptídica da Insulina (hormônio cuja falta acarreta a doença diabetes mellitus), e em 1980, pela criação de técnicas de sequenciamento de DNA.


mandela

Suas vidas, origens, e desafios que enfrentaram foram completamente diferentes. Um nasceu numa tribo sul-africana, engajou-se na luta política de um país disputado pelas potências europeias, foi preso por quase 3 décadas, e participou ativamente do movimento que pôs fim à segregação racial injuriosa do apartheid. O outro nasceu na Inglaterra, cedo apaixonou-se por temas científicos, teve a oportunidade de estudar sob uma metodologia chamada Plano Dalton, cujo escopo visava ao desenvolvimento da liberdade, iniciativa e autonomia dos discentes, e tornou-se um dos maiores cientistas de todos os tempos.

sanger

O regime no qual Sanger desenvolveu seu potencial científico contrasta, radicalmente, com aquele que se tornou a razão da vida e luta de Mandela. Mas ambas as conjunturas ensejaram que seus protagonistas empurrassem a humanidade a um estágio mais avançado de civilização. Sanger estendeu as fronteiras do conhecimento, desvendando a estrutura química da vida. Mandela ampliou as da liberdade humana, derrubando o preconceito, o racismo e a hipocrisia.

Nestes meados de 2014, no entrementes das datas em que se comemorariam os 96 anos dos dois personagens, a importância de suas trajetórias é aqui lembrada em deferência aos que se dedicam, de forma construtiva, ao progresso do homem na Terra.

No mesmo instante em que esta homenagem é aqui registrada, escreve-se, em outra parte do globo, mais um triste capítulo da História. Trata-se do conflito na Faixa de Gaza que já ceifou a vida de cerca de 50 soldados israelenses, e mais de 1500 civis palestinos, dentre os quais muitas crianças, mulheres e idosos. É fato difusamente conhecido que vários mísseis de Israel já atingiram escolas e hospitais, sob a justificativa de os locais abrigarem terroristas do Hamas, e sob a auto-eximição de os mesmos usarem a população como escudo humano.

Em meio às críticas que Israel recebeu da comunidade internacional (incluindo as de aliados, como os EUA), foi particularmente interessante sua reação à do Brasil, que convocou seu embaixador no país. Chamou, através de seu porta-voz, o país de “anão diplomático”, e de parceiro “irrelevante”.

O menoscabo público e oficial na referência a um membro da ONU com quem, historicamente, manteve laços de amizade, denota o grau de respeito que Israel dedica a quem dele discorda.

Mandela certa vez disse que sonhava com o dia em que todos se levantariam e compreenderiam que foram feitos para viver como irmãos. Sanger, certa feita, ao recusar uma distinção que lhe foi oferecida, respondeu: “A knighthood makes you different, doesn’t it, and I don’t want to be different!”. Tarde demais… Enquanto se discute a definição do que seja desproporcional, 7×1 no futebol, ou 50 contra 1500, a relevância gigante das memórias de Frederick Sanger e Nelson Mandela se opõe à moralidade anã dos promotores da desgraça de Gaza.

3 Responses to Sobre gigantes e anões

  1. Em junho de 2013, dizia-se que o gigante havia despertado. Parece que ainda boceja e esfrega os olhos, pois ainda não atinou com o compromisso moral de deixar de prestigiar ditadores, mas manifesta algum desconforto com massacres em terras distantes. É tachado de anão, numa visão desproporcionalmente insana da truculência que não respeita crianças. Uma terceira escola da ONU acaba de ser alvejada impiedosamente, de forma desproporcional. A proporção talvez seja ligada à doutrina do “olho por olho”, “dente por dente”, mas o que se vê é “população inocente por olho” e “crianças por dente”. Até a proporção 1 x 1 foi contestada por um Judeu que viveu há 2014 anos na Palestina.

  2. Fernanda Frattini disse:

    Estou feliz de compartilhar de vossas reflexões a respeito do atual conflito em Gaza. Infelizmente, ainda tenho amigos e conhecidos que – judeus, cristãos, candomblecistas ou ateus (não tenho amigos abertamente muçulmanos, apenas simpatizantes) – reduzem a questão a uma bipolarização acusatória: sionismo x terrorismo da Hamas. De todo, alguns fatos não podem ser ignorados, a exemplo das escolas e hospitais bombardeados por Israel e seu arsenal bélico reconhecidamente mais vasto e de ponta. No entanto, a grande mídia brasileira -que, olhando com boa vontade, chega quase a ser um oligopólio – muito escassamente dá voz ao outro lado. E, deste modo, fez mais alarde com relação à questão da nossa imagem diplomática do que em relação ao problema real que lá ocorre. Apenas pontuo em acréscimo que foi esta mesma mídia que criou a metáfora do gigante. E é ela quem nos fornece o retrato dos manifestantes e de todas as questões envolvidas em nossa política. Um ponto de vista interessado e, a meu ver, engessado,fixado e viciado numa ótica de guerra fria. Para mim, bipolaridades serão sempre reducionistas e a verdade um tanto mais complexa, só podendo ser construída com a soma e a transposição de múltiplos pontos de vista. Acho também que metáforas e alegorias funcionam mais adequadamente quando falamos de sentimentos, questões pessoais ou mais etéreas de maneira geral. Assuntos que não conseguem ter delimitação precisa em razão de sua própria natureza e que precisamos absorver aos poucos (garfar e ruminar, para usar de certa metalinguagem se não me falha a memória). Já em relação a questões políticas onde, se queremos ter algum avanço reflexivo, é preciso se valer mais de método, creio que as metáforas só se fazem pertinente quando há um aparelho repressor pronto atacá-lo caso você o fale diretamente. Do contrário, melhor debatermos por partes, garantindo um pressuposto comum ou ao menos a exteriorização de nossos pressupostos, sob pena de não conseguirmos nos entender. E, em não entendendo, nos ocuparmos apenas de rebater automatizadamente o argumento do outro sem considerá-lo. Voltando, então, à manifestação bélica da guerra entre nós… aquilo que tanto repudiamos (ainda que em escalas discrepantes e não comparáveis).

  3. Ozanir Roberti disse:

    O equilíbrio nos pensamentos e a valorização das qualidades importantes do ser humano são as principais marcas do texto de Sidney Frattini Jr. A linguagem eficiente, num português acadêmico, permite que suas ideias entrem facilmente em nossos cérebros. Tomara que consigam, também, fazer outros – quem sabe, alguns protagonistas – refletirem sobre uma antiga máxima: “a verdade tem sempre duas faces”. O difícil é conseguir vê-las, aceitá-las e conviver harmoniosamente com elas..

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