Arquivos do Autor: Sidney Frattini

Sobre gigantes e anões

Nascido no fim da 1ª Grande Guerra, em 1918, e falecido no fim do ano passado aos 95 anos, ele foi ganhador do prêmio Nobel, e contribuiu, indiscutivelmente, para o progresso humano no século XX.

Se à mente do leitor veio a figura de Nelson Mandela, deve saber que a descrição também se aplica ao bioquímico Frederick Sanger. Ambos nasceram no mesmo ano de 1918 com diferença de 1 mês (Mandela em julho, Sanger em agosto), e faleceram em 2013, igualmente, em meses consecutivos (Sanger em novembro, Mandela em dezembro). Mandela foi laureado com o Nobel da Paz em 1993. Sanger com o de química por duas vezes – em 1958, quando determinou a sequência peptídica da Insulina (hormônio cuja falta acarreta a doença diabetes mellitus), e em 1980, pela criação de técnicas de sequenciamento de DNA.


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Suas vidas, origens, e desafios que enfrentaram foram completamente diferentes. Um nasceu numa tribo sul-africana, engajou-se na luta política de um país disputado pelas potências europeias, foi preso por quase 3 décadas, e participou ativamente do movimento que pôs fim à segregação racial injuriosa do apartheid. O outro nasceu na Inglaterra, cedo apaixonou-se por temas científicos, teve a oportunidade de estudar sob uma metodologia chamada Plano Dalton, cujo escopo visava ao desenvolvimento da liberdade, iniciativa e autonomia dos discentes, e tornou-se um dos maiores cientistas de todos os tempos.

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O regime no qual Sanger desenvolveu seu potencial científico contrasta, radicalmente, com aquele que se tornou a razão da vida e luta de Mandela. Mas ambas as conjunturas ensejaram que seus protagonistas empurrassem a humanidade a um estágio mais avançado de civilização. Sanger estendeu as fronteiras do conhecimento, desvendando a estrutura química da vida. Mandela ampliou as da liberdade humana, derrubando o preconceito, o racismo e a hipocrisia.

Nestes meados de 2014, no entrementes das datas em que se comemorariam os 96 anos dos dois personagens, a importância de suas trajetórias é aqui lembrada em deferência aos que se dedicam, de forma construtiva, ao progresso do homem na Terra.

No mesmo instante em que esta homenagem é aqui registrada, escreve-se, em outra parte do globo, mais um triste capítulo da História. Trata-se do conflito na Faixa de Gaza que já ceifou a vida de cerca de 50 soldados israelenses, e mais de 1500 civis palestinos, dentre os quais muitas crianças, mulheres e idosos. É fato difusamente conhecido que vários mísseis de Israel já atingiram escolas e hospitais, sob a justificativa de os locais abrigarem terroristas do Hamas, e sob a auto-eximição de os mesmos usarem a população como escudo humano.

Em meio às críticas que Israel recebeu da comunidade internacional (incluindo as de aliados, como os EUA), foi particularmente interessante sua reação à do Brasil, que convocou seu embaixador no país. Chamou, através de seu porta-voz, o país de “anão diplomático”, e de parceiro “irrelevante”.

O menoscabo público e oficial na referência a um membro da ONU com quem, historicamente, manteve laços de amizade, denota o grau de respeito que Israel dedica a quem dele discorda.

Mandela certa vez disse que sonhava com o dia em que todos se levantariam e compreenderiam que foram feitos para viver como irmãos. Sanger, certa feita, ao recusar uma distinção que lhe foi oferecida, respondeu: “A knighthood makes you different, doesn’t it, and I don’t want to be different!”. Tarde demais… Enquanto se discute a definição do que seja desproporcional, 7×1 no futebol, ou 50 contra 1500, a relevância gigante das memórias de Frederick Sanger e Nelson Mandela se opõe à moralidade anã dos promotores da desgraça de Gaza.

Contém ômega 3

“Os peões são a alma do xadrez!”chess

A afirmação acima foi feita pelo enxadrista francês François André Philidor em meados do século XVIII. Philidor é considerado o primeiro dos grandes jogadores que tentou criar uma teoria posicional, calcada numa visão científica do jogo de xadrez. Segundo o grande mestre Garry Kasparov, todos os melhores jogadores de cada época refletiram, em seus estilos, os valores sociais e culturais da época em que viveram.

Philidor viveu, de fato, num período de grandes questionamentos e transformações. Um tempo em que novas luzes foram lançadas sobre certezas historicamente arraigadas, desafiando a autoridade de reis e clérigos, bem como as antigas concepções vigentes das leis que regem a natureza e o universo.

Os reflexos dessa Idade da Razão, o Iluminismo, se fizeram sentir nas várias revoluções que ecoaram no velho e no novo mundo, onde distintos povos e grupos sociais passaram a protestar contra a exploração de que se sentiam vítimas. Na América do norte, por exemplo, os impostos ingleses sobre o açúcar e o selo desencadeariam enorme prurido nas 13 colônias, e resultariam na independência americana em 1776. Na França, em 1789, a mobilização do oprimido 3º estado culminaria na revolução francesa, na decapitação do rei, e na confirmação da força que possui a plebe, parecendo reforçar a exaltação, por Philidor, das peças menos valiosas do jogo.

O Brasil também teve suas revoltas contra a exploração portuguesa, como a conhecida Inconfidência Mineira, deflagrada no mesmo ano da queda da bastilha, em protesto contra os escorjantes impostos sobre as atividades de mineração.

Tão importantes quanto os movimentos sociais e políticos, foram os progressos científicos. Decerto, o Iluminismo lançou sua claridade sobre a própria luz em si. Foi em 1780 que o químico inglês Joseph Priestley fez o primeiro experimento que levou à descoberta da fotossíntese – a conversão de energia luminosa em energia química. Anos antes, o político e cientista americano Benjamin Franklin também dera contribuições a ela em seus estudos sobre a eletricidade.

Benjamin Franklin

Benjamin Franklin

Franklin era mesmo um curioso nato. Em 1773, escreveu a um amigo sobre o efeito do óleo na água, fascinado pela observação de que mesmo uma pequena quantia de azeite se espalhava pela enorme área de um lago, e tirava a agitação causada pelo vento, tornando sua superfície lisa como um espelho.

A característica do azeite que gerava o efeito admirado por Franklin tem correlação com a organização de suas moléculas quando inseridas num meio aquoso: sua insolubilidade em água, ou hidrofobia. E ela também permite compreender a importância, muito repetida por todos, de um nutriente cujo significado quase ninguém sabe – o ômega 3.

Quantas vezes o leitor já ouviu (ou leu) as frases “Contém ômega 3”; “Livre de gordura trans”; “Não contém gordura saturada”; “Contém gordura vegetal”? Você tem alguma ideia do que sejam esses termos? Pois o post de hoje tentará explicá-los…

Tal como o colesterol, os ácidos graxos são um tipo de lipídio presente nas membranas de todas as células do nosso corpo. Há vários subtipos, mas todos se assemelham ao rústico desenho de uma cabeça com duas longas pernas, onde estas são as duas moléculas de ácido graxo, e a cabeça uma molécula com solubilidade em água (ou hidrofílica).

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Cada “perna” de ácido graxo é chamada de saturada quando só há ligações simples entre seus átomos, o que acontece quando ela é “hidrogenada” (átomos de hidrogênio completam as ligações que faltam). Já quando há ‘duplas ligações’ entre os átomos, o ácido graxo é dito INsaturado.

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Na gordura saturada, as pernas tendem a permanecer mais retificadas.

Quando a 2ª situação ocorre (gordura insaturada), o(s) local(is) da(s) dupla(s) ligação(ões) pode(m) gerar um ângulo na perna (à semelhança de uma perna torta). Essa é a configuração Cis, em oposição à configuração Trans, na qual a perna se mantém também retificada (como na gordura saturada).

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Antes que o leitor boceje diante de tanta bioquímica, as “pernas retas” da gordura saturada e daquela com formato trans são PREJUDICIAIS às nossas membranas. E você já entenderá o porquê! Vamos antes entender o ômega 3…

Nosso corpo é capaz de fabricar quase todos os ácidos graxos de que precisamos à exceção de dois, que chamamos de “nutricionalmente essenciais”. Um deles é classificado como ômega 3 porque a 1ª dupla ligação (são várias na molécula) fica no 3º átomo de carbono.

Esse importante lipídio está presente em altas concentrações na retina e no nosso cérebro, e é encontrado em óleos de linhaça, de algumas plantas e peixes, bem como na soja. Talvez daí venha o aforismo de que “peixe deixa inteligente”.

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Para finalizar, lipídios INsaturados (como os ômega 3) conferem fluidez às membranas das células, o que é essencial para o transporte de substâncias para dentro ou fora delas, já os Saturados, ou aqueles insaturados com formato trans, cujas “pernas” são mais retilíneas, REDUZEM a fluidez das membranas. Uma analogia simples ajudará a entender a razão disso.

Nos últimos meses, vimos, no país, vários protestos de manifestantes pelos mais diversos motivos. Basicamente, todos pleiteavam mais justiça diante de nossas autoridades que, historicamente, têm se locupletado com privilégios injustificáveis e nos explorado com impostos aviltantes.

Não raro, as manifestações têm descambado para violência franca, com excessos por parte de policiais e reivindicadores.

As gorduras saturada e trans, com suas “pernas  retilíneas”, tendem a se acomodar na membrana celular de maneira mais justaposta, uma ao lado da outra, à semelhança da rígida unidade militar de um pelotão policial que se desloca em bloco; e onde há pouca permeabilidade entre seus membros. Já a gordura insaturada, com seus ômega 3, e “pernas tortas”, não permite uma acomodação tão bem organizada das moléculas, o que aumenta a fluidez e mobilidade entre elas. Como um grupo heterogêneo de manifestantes no qual se infiltram vândalos e Black blocs, tornando a “causa” mais fluida; menos firme.

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Enquanto num caso o resultado é benéfico; no outro, claramente, tira a “alma do xadrez”

O que você sabe sobre o colesterol?

Na edição do último domingo, 29/09, o jornal O Globo publicou uma matéria sobre os 25 anos da Constituição de 1988. Aquela que ficou conhecida pelo epíteto dado por Ulisses Guimarães de “Constituição Cidadã”.

Dentre as frases da época citadas no topo da reportagem, há uma interessante de Sebastião de Camargo:

“O que julgo mais urgente é uma política mais humana para que o cidadão sem posse cuide de sua saúde da mesma forma que um cidadão bem situado economicamente.”

Bem… Independente de, até o momento, a nova constituição ter logrado êxito no seu objetivo de tornar a saúde pública mais justa, o post de hoje visa também fazer justiça! Mas a uma substância amiúde pouco compreendida e, não raro, criticada – o colesterol!

 

Molécula do Colesterol

Molécula do Colesterol

É cena comum nos consultórios de clínica médica e cardiologia. Você leva seus exames de rotina e espera, ansioso, o parecer do médico sobre como está seu colesterol, sobre o que deve ou não comer, e o que deve tomar para baixá-lo.

Mas o que é, afinal, o colesterol? O que de fato significa colesterol “bom” e “ruim”? E, mais importante, para que ele serve além de entupir nossas artérias?

A explicação remonta a uma época revolucionária na França, quando Política e Ciência avançavam, cada uma a seu turno, transformando o mundo tal qual se conhecera até então: os anos que se seguiram à ascensão e queda de Napoleão Bonaparte.

Naquelas três primeiras décadas do século XIX, a maioria dos países latino-americanos conquistaria sua independência, em parte como resultado do abalo gerado pelas tropas napoleônicas em suas metrópoles. O Brasil, bem sabemos, conseguiu a sua em 1822. Mas, no ano seguinte, enquanto a dissolução da assembleia constituinte que definiria os rumos do recém-emancipado império gerava a revolta de um certo Frei Caneca, um químico francês chamado Michel Chevreul publicava, em seu país, um importante trabalho sobre a gordura animal.

Michel Chevreul

Michel Chevreul

O estudo, intitulado “Pesquisas sobre os corpos graxos de origem animal” (numa ousada tradução livre!!)  foi onde se citou o termo colesterol pela primeira vez.

A etimologia da palavra provém do grego: Cole, que significa bile, e stereos – sólido, pois foi identificado na forma de cristais nos cálculos biliares (a terminação –ol designa, ainda, um álcool). E isso também explica a curiosa origem de alguns termos.

A bile, na tradição da antiguidade clássica, era um dos 4 ‘humores’ de cujo equilíbrio dependia a saúde do corpo. Acreditava-se que suas variações podiam produzir agressividade ou depressão; donde vieram os vocábulos cólera e melancolia.

Antes, porém, de prosseguir invadindo o terreno dos historiadores e profissionais da língua, vamos às respostas…

O colesterol é um tipo de lipídio (ou gordura) presente na membrana de todas as células do corpo. Apesar da origem de seu nome, ele é essencial para conferir fluidez às membranas.  É a substância que os ovários e testículos utilizam para produzir os hormônios sexuais estrogênio, progesterona e testosterona. Nossas glândulas supra-renais também necessitam dele para produzir hormônios que controlam a glicemia e a pressão arterial – cortisol e aldosterona.

Ele é, ainda, o precursor da famosa vitamina D, tão útil para evitar a fraqueza dos ossos!

Apesar da frequente preocupação quanto ao que devemos ingerir para evitar seu excesso, um pouco menos da metade do colesterol do organismo vem, de fato, da dieta. A maior parcela provém mesmo da produção endógena, e tem correlação com fatores genéticos.  (Mas que isso não sirva de pretexto para a feijoada do próximo sábado!)

Agora vamos à outra questão… A do colesterol “bom” e “ruim”!

O que vulgarmente chamamos de colesterol bom e ruim são, na verdade, dois tipos de partículas através das quais o organismo transporta o colesterol no sangue. O que as diferencia é, basicamente, o tamanho e a densidade.

Por ser uma gordura, o colesterol não é solúvel em água. (E, lembre-se, nosso sangue é composto, sobretudo, por água!). A maneira encontrada para resolver esse problema foi acomodar centenas de moléculas de colesterol dentro de vesículas (como minúsculas bolsas esféricas) chamadas de lipoproteínas, cuja superfície externa fosse solúvel em água!

As LDL (parte “ruim”) que você vê em seu exame de sangue são maiores, tem mais moléculas de colesterol e, portanto, são MENOS densas (razão da sigla em inglês – lipoproteína de baixa densidade); e as HDL (parte “boa”) são menores, têm menos colesterol, e são relativamente MAIS densas que as anteriores (lipoproteína de alta densidade).

Além de moléculas de colesterol, as LDL contêm outros lipídios, como os ácidos graxos, que o requintado leitor talvez conheça pela tradução em francês – gras, do saboroso patê de foie gras (fígado gordo); e o folião pelo tradicional carnaval de Nova Orleans: Mardi Gras (ou 3ª feira gorda)!

Basta dizer, no entanto, que a LDL, quando em excesso, libera parte de seu conteúdo nos vasos sanguíneos gerando a aterosclerose; e que a HDL, com menor teor de gordura, “puxa” o colesterol para dentro de si.

 

Michael Brown e Joseph Goldstein, cujos estudos muito contribuíram para compreendermos o colesterol, disseram em 1985:

“O colesterol é uma molécula com a face de Janus. A mesma propriedade que o torna útil nas membranas celulares, sua absoluta insolubilidade em água, também o torna letal.”

Janus era a divindade romana que deu nome ao mês de janeiro. Representado por duas faces voltadas para lados opostos, ele simboliza o passado e o futuro, e é o deus dos inícios.

Janus, o Deus do Início

Janus, o Deus dos Inícios

Vinte e cinco anos depois, não poderia ser mais atual a preocupação de Sebastião de Camargo. Tal como a dissolução da constituinte que gerou a revolta de Frei Caneca, a Constituição Cidadã permanece tendo seus princípios dissolvidos na realidade da saúde pública do nosso país do futuro; que se mantém preso às mazelas do passado, e que nunca se cansa de reiniciar, mas incapaz de resolver os problemas do agora.

Fenilcetonúricos, contém fenilalanina

A mais recente decisão do Supremo Tribunal Federal no caso do mensalão sobre os tais embargos infringentes refletiu com exatidão a mentalidade do país: Somos um país que protela. Seja através dos incontáveis recursos do sistema jurídico, seja pela exaustiva burocracia para resolver as coisas mais simplórias, fazemos parte de uma nação de procrastinadores.

O ministro Lewandovski resumiu essa tendência, com perfeição, em uma pergunta simples durante uma de suas excitantes discussões com o ministro Joaquim Barbosa.

“Do que temos pressa?”, questionou ao ser incitado a ser menos prolixo em seus comentários em favor dos réus.

 

Bem, política à parte, o assunto que desejo abordar neste post é outro. Uma enfermidade de que muitos ouviram falar, mas sobre qual, creio, nem todos sabem muita coisa: a Fenilcetonúria!

Quem nunca leu nas latas de refrigerante a frase: “Fenilcetonúricos, contém fenilalanina”? Você sabe o que isso significa? Pois bem, vamos lá!

Essa frase nada mais é do que um aviso aos portadores dessa doença. Como se o fabricante do refrigerante dissesse: “Ei, vocês que são fenilcetonúricos, que são portadores de fenilcetonúria, esse produto contém fenilalanina! Não o bebam!”

Mas o que é fenilalanina? E por que quem tem a doença não pode ingeri-lo?

Como gosto de História, e bioquímica é um pouco maçante mesmo pra quem é da área, vou voltar um pouco no tempo a fim de contextualizar a explicação – aos revolucionários anos 1930

Em 1934, o mundo assistiu a alguns eventos importantes. Nesse ano, na Alemanha, por exemplo, as Brigadas de Segurança (SS) de Hitler esmagaram uma tentativa de golpe engendrada por Ernest Roehm – chefe das SA (Seções de Assalto) e seu ex-aliado. O episódio, conhecido como Noite dos Longos Punhais, fortaleceu o líder do partido nazista, que assumiu a presidência do país após a morte de Hindenburg naquele mesmo ano.

O Brasil, na época, também teve sua revolução. Mas, pelo contrário, com algum ganho de civilidade em certos aspectos institucionais. Foi quando, sob o governo de Getúlio Vargas, se promulgou a 2a constituição da República, que estabeleceu ou regularizou o voto direto, a Justiça do Trabalho e  Legislação Trabalhista, a extensão do voto às mulheres e o mandato presidencial de 4 anos.

Bem, ainda naquele ano, enquanto se desenrolavam esses fatos históricos, um médico norueguês chamado Asbjörn Fölling investigava a causa do retardo mental de dois irmãos que haviam nascido normais. A mãe dos pacientes relatou que notara surgir um forte odor na urina dos rapazes quando eles tinham 1 ano de idade, e o Dr. Folling, que também era bioquímico, descobriu que a substância responsável pelo odor deixava a urina com uma cor verde-oliva quando se acrescentava FeCl3 (cloreto férrico). A substância, de nome estranho, era o fenilpiruvato, um ácido (mais precisamente um cetoácido), que deu nome à doença de fenilcetonúria (o sufixo -úria se refere à perda na urina).

Mas o que, afinal, isso tem a ver com a fenilalanina?

A fenilalanina é um dos 20 tipos de aminoácidos que formam as proteínas do nosso corpo. A maior parte da fenilalanina que ingerimos (75%) é transformada em tirosina, um outro aminoácido que o organismo utiliza para fabricar os famosos hormônios da tireoide, além de transmissores cerebrais.

É justamente essa transformação que está defeituosa nos portadores da doença!

O resultado é o acúmulo de fenilalanina, e sua conversão ao fenilpiruvato.

A consequência desse defeito é o retardo mental grave e a baixa expectativa de vida (sem tratamento, a maioria morre antes dos 30 anos de idade). E a terapia é, justamente, uma alimentação pobre em fenilalanina iniciada bem cedo, logo após o nascimento.

Foi essa preocupação de diagnóstico precoce que motivou a adoção da triagem em massa da população através do conhecido ‘teste do pezinho’, que além desse, identifica outros vários distúrbios metabólicos.

Hoje, quase 80 anos depois dos acontecimentos narrados, a Alemanha é um dos países mais desenvolvidos social e economicamente do mundo. Tem instituições fortes e democracia estável.

Na visão de alguns políticos brasileiros, ao contrário, nossa democracia é mercadoria a ser comprada com o suborno de algumas mesadas.

Um estudo mostrou que o Q.I. médio de fenilcetonúricos tratados poucas semanas após o nascimento era de 93, comparado ao Q.I. de 53 daqueles cujo tratamento foi iniciado após 1 ano de idade.

O que isso nos deixa de lição?

Que ter pressa pode fazer toda a diferença!

A Romântica Paris (sob um outro ponto de vista…)

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Exímia escritora, minha esposa é notoriamente proveniente de uma família ligada às letras, haja vista como bem se utiliza da Metáfora e daquela outra figura de linguagem conhecida como Eufemismo.

No dia em que chegamos de trem à Paris, havíamos vindo de Zurique, cidade belíssima, limpa e organizada. Melhor ainda, nem um pouco tumultuada! Acordáramos cedo e, ansiosos para aproveitarmos aquela manhã que nos restara (passamos somente 1 dia na Suíça), andamos MUITO antes de fazermos o check out do hotel e seguirmos para a estação de trem A PÉ (!!!) com nossas pesadas malas! (Minha esposa, definitivamente, não sabe ser econômica ao fazê-las para viajar.)

A chegada à linda Paris foi como descrito por ela em seu post – trânsito, muito trânsito, nos arredores do nosso hotel.

Corajosos e animados, saímos novamente a pé, embora meus joelhos começassem a dar sinais de fadiga! Andamos até o famoso Louvre, à frente de cuja entrada o oceano de gente era assustador!

Os descritos vendedores ambulantes não nos largavam um só minuto, decerto experientes quanto ao estilo consumista de nós brasileiros. Venciam sempre, apesar de meus protestos e olhares de reprovação à minha esposa, que sempre inventava novos nomes para distribuir, quando chegasse ao Rio, as miniaturas de Torre Eiffel que acumulava na bolsa.

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Percorremos o enorme museu inteiro (ou quase) admirando as obras de maneira en passant. Era muito conteúdo para pouco tempo! Certamente, uma das menos interessantes foi a disputada Mona Lisa, onde a aglomeração se acotovelava para enxergar alguma coisa.

Exaustos, saímos de lá para aí então ANDAR, ANDAR e ANDAR pelo jardim das Tulherias e Champs Elysees até o Arco do Triunfo, ao qual chegamos com meus joelhos em chamas!!

Loucos por ver a bela vista lá do alto, descobrimos já no término da fila que o elevador QUEBRARA!!! Olhei angustiado para as minhas patelas, que pareciam me encarar horrorizadas com o que eu estava prestes a fazer.

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Fiz! Subi e desci do Arco do Triunfo pela vertiginosa escadaria, após contemplar a magnífica visão que se tinha da Torre Eiffel e do resto da cidade. O retorno ao hotel, para completar o sofrimento do dia, foi feito a pé.

No manhã seguinte, meus joelhos e eu acordamos de Mal. Pouco adiantou ir à Torre Eiffel de metrô, pois logo que chegamos, subimos de escada até o segundo andar da base (que é altíssimo).

Linda vista, belas fotos, e um (mais ou menos) bom almoço, e lá estavamos nós de novo andando pela cidade.

IMG_0515No 3o dia também andamos (MUITO) pelo Palácio de Versailles. Aqui vale um comentário especial. Foi, talvez, a construção humana mais impressionante que eu já vi em viagens. Gigante, opulento, magnífico! Não há palavras para descrevê-lo!!DSC05148

O outro passeio citado por ela em seu post, a Ópera de Paris, também teve bem menos romance do que possa ter parecido. Logo à frente da entrada presenciamos duas garotas ciganas tentando roubar a carteira de um japonês desavisado. Não sei se era japa mesmo, ou se o sujeito era de algum outro país oriental de olhos puxados, mas eles parecem mesmo ser os únicos turistas que não percebem os incontáveis avisos de “Cuidado com os pickpockets” espalhados pela cidade.

Enfim, saí de Paris com a certeza de que se a cidade é encantadora para os casais, é também desapontadora para a relação com as nossas próprias pernas.

 

O verdadeiro SEXO FRÁGIL

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Em agosto de 2009, o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem, que visa a prover atenção mais qualificada à população masculina adulta.

A razão dessa recente preocupação é bastante evidente quando se observam alguns dados. E é extremamente notável e interessante que tal política tenha surgido posteriormente a várias outras, como ao Programa de Assistência Integral à Saúde das Mulheres, de 1984, ao Programa de Assistência Integral à Saúde das Crianças (do mesmo ano), bem como às políticas voltadas: às populações indígenas (lançada em 2002), aos idosos (de 2006) e à população negra (de 2007).

Vários estudos realizados no último decênio têm demonstrado que os homens são mais suscetíveis do que as mulheres ao adoecimento, sobretudo quando se trata de doenças crônicas. Eles têm, ainda, menor expectativa de vida e buscam atendimento médico menos frequentemente do que as mulheres. Quando o fazem, geralmente estão num estágio mais avançado da enfermidade, quando obviamente são menores as possibilidades terapêuticas.

Pesquisas qualitativas identificaram dois tipos de barreiras entre a população masculina e os serviços de saúde. A primeira diz respeito ao aspecto sócio-cultural. Ainda vivendo em uma sociedade patriarcal, são os homens tradicionalmente criados sob o estigma de seu atributo de superior força física e, portanto, maior resistência. É-lhes penoso reconhecer traços de fraqueza ou vulnerabilidade. Depender de outrem, ou perder a posição de provedores em suas unidades familiares acarreta-lhes amiúde maior sofrimento psíquico do que às mulheres em situação semelhante.

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O homem resiste mais em reconhecer a doença como inerente à sua condição biológica, e tende a ter a ideia de que o cuidado pessoal é algo tipicamente feminino. Isso se soma ao segundo tipo de barreira, conhecida como institucional. Os horários disponíveis para consultas médicas não raro coincidem com os dias úteis nos quais se desempenham as atividades laborativas, o que serve de pretexto para evitá-las. Outro fator que contribui para não se criar a cultura da avaliação clínica regular é que as estratégias de comunicação de nosso sistema de saúde têm se voltado sistematicamente para outras parcelas da população, tais quais mulheres, idosos e crianças, historicamente consideradas mais frágeis.

As estatísticas do Ministério da Saúde também mostram que há maior percentual de homens do que de mulheres dentre os dependentes de álcool e de drogas, bem como que são eles os mais vulneráveis à violência urbana. São os maiores envolvidos em acidentes de trânsito fatais, e predominam sobre as mulheres dentre os portadores de deficiência física e mental.

Já não era, portanto, sem tempo, que nosso sistema de saúde criasse mecanismos de direcionar ações específicas a tal segmento da população.

doc4Você, caro leitor, que finaliza agora esse post, tente lembrar a última vez que fez um check up com seu médico. E analise se não tem negligenciado sua própria saúde em algum aspecto.

Um abraço e até a próxima!