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Mais médicos?

MAIS MÉDICOS?

Simone Frattini*

O ensino médico no Brasil teve início tão logo a corte portuguesa desembarcou por aqui. Em fevereiro de 1808, D João VI criou, na Bahia, a primeira escola a ensinar medicina e cirurgia no país. Nove meses depois, nascia mais uma: a Escola Anatômica Cirúrgica e Médica do Rio de Janeiro. Passados 204 anos, em 2012, a USP publicou um relatório sobre avaliação das Escolas Médicas Brasileiras, mostrando que, ao todo, temos 198 instituições ensinando medicina no Brasil, um dos maiores índices do mundo.

Apenas nos últimos 17 anos, foram abertos 96 cursos novos de Medicina. A maioria em instituições particulares. Hoje, elas são mais de 57% do total, cobrando uma média de 4 mil reais por mês de seus alunos. Com o “baby boom” da educação médica no país, era de se esperar que o Ministério de Educação exercesse sua função de órgão fiscalizador e tivesse relativo controle do desenvolvimento dessas novas escolas. Por outro lado, também era de se esperar que o MEC não abandonasse o cuidado e a atenção em relação às antigas e já renomadas instituições.

Era de se esperar… Mas nós nos acostumamos a esperar demais. E receber de menos.

É óbvio que o MEC não estava cuidando do Ensino Médico como deveria. Não percebia o risco de morte de uma das mais tradicionais escolas médicas do Rio de Janeiro: a Universidade Gama Filho, fundada em 1939 e responsável por formar novos médicos desde 1965. Ao voltar os olhos somente para o novo, bebês que nasciam fortes e saudáveis, esquecia o cuidado com as instituições mais antigas, que respiravam por aparelhos.

Fossem médicos, os responsáveis pelo MEC ouviriam o bip-bip, tão comum nos nossos CTIs, falhando peremptoriamente. A Universidade Gama Filho começou a dar indícios de falhas internas no final de 2011. Alunos manifestaram-se, funcionários idem. O MEC, que, além de não ser médico, não preza pelo cuidado, não se mexeu. Os sintomas estavam todos lá. A infecção começava a se alastrar, e a morte seria questão de tempo. Se o MEC fosse um médico, teria percebido a gravidade do caso e poderia salvar a tempo a vida de quem ele deveria estar cuidando.

Ao longo de 2012 e 2013, enquanto estava em pauta a contratação de médicos estrangeiros para suprir a necessidade de mais profissionais da área no Brasil, cerca de 2 mil acadêmicos do curso de Medicina da Universidade Gama Filho lutavam para dar seguimento aos seus estudos, em uma instituição que vinha definhando, visivelmente. Professores competentíssimos e renomados, funcionários extremamente dedicados e fiéis à história do seu local de trabalho mantiveram a universidade de pé, sabe-se lá como. Sem a assistência necessária, ou seja, a atenção do MEC, tanta vontade de sobreviver não bastaria.  

Se precisamos de mais médicos, principalmente bons médicos, por que não cuidar dos nosso acadêmicos de Medicina? Por que importar médicos de outros países? Por que criar mais vagas? Fosse o MEC um médico, saberia que não se cobre um machucado profundo com um band-aid. Dependendo do tamanho da lesão e do dano, não adianta importar, de outros países, gaze e linha de sutura. Há que se fazer uma cirurgia. De outro modo, a lesão continua lá. E dói e mata do mesmo jeito.

Em 08 de julho de 2013, o Ministério da Saúde lançou o Programa Mais Médicos. Com os olhos voltados à necessidade – real – de levar assistência à saúde a milhões de brasileiros carentes. Com a contratação de profissionais estrangeiros, espera-se suprir momentaneamente uma demanda reprimida. Com a formação cuidadosa, assistida e adequada de médicos brasileiros, seria possível suprir esta demanda eternamente.

Não cabe mais perguntar por que se contratar médicos estrangeiros e criar novas vagas nos cursos de Medicina quando não há um cuidado e uma preocupação com aqueles que estão em vias de se formar médicos, alunos entre o primeiro e o sexto ano de formação médica.

Não cabe perguntar, porque não há resposta satisfatória.

E , ainda assim, precisamos de mais médicos.

Em 12 de dezembro de 2013, foi autorizada, por meio da Política Nacional de Expansão das Escolas Médicas, a abertura de 560 vagas para cursos de Medicina. Até 2017, serão abertas 11.447 vagas em instituições públicas e privadas. O baby boom continuará, sem a menor garantia de que estas novas possibilidades serão bem alimentadas, bem cuidadas, bem nutridas. Criar vagas no ensino superior não é tão complicado assim. Difícil é manter a qualidade deste ensino. É ter certeza de que a educação médica no país está crescendo forte e saudável. Ao que tudo indica, não está.

Fosse o MEC um médico, saberia que não basta colocar um filho no mundo. É preciso cuidar, alimentar, dar vacina, e, de vez em quando, levar ao pediatra, para ter certeza que ele está se desenvolvendo bem e com saúde. Mas o MEC não é médico. O MEC não entende nada de Medicina.

Aliás, ao que tudo indica, o Ministério da Educação e o Ministério da Saúde são partes de um todo, mas que não se entendem muito bem. Enquanto um diz “mais médicos”, o outro abandona os futuros médicos, acadêmicos prestes a se formar e a iniciar uma carreira na Medicina, em um país que insiste em gritar: “mais médicos”. Fosse o MEC um médico, de qualquer área, ele entenderia que, se uma população grita que precisa de remédio, não adianta vir com placebo. Uma vez, li que quem tem fome, tem pressa. Quem está morrendo também. Os primeiros 10 minutos num atendimento de emergência fazem toda a diferença na sobrevivência do paciente.

Ainda bem que o MEC não é médico. A esta altura, nós, estudantes de medicina da Universidade Gama Filho, já estaríamos todos mortos. 

 

*Artigo publicado no jornal O GLOBO, seção Opinião, no primeiro caderno, pág. 13. Segue aqui o texto integral.  

Contém ômega 3

“Os peões são a alma do xadrez!”chess

A afirmação acima foi feita pelo enxadrista francês François André Philidor em meados do século XVIII. Philidor é considerado o primeiro dos grandes jogadores que tentou criar uma teoria posicional, calcada numa visão científica do jogo de xadrez. Segundo o grande mestre Garry Kasparov, todos os melhores jogadores de cada época refletiram, em seus estilos, os valores sociais e culturais da época em que viveram.

Philidor viveu, de fato, num período de grandes questionamentos e transformações. Um tempo em que novas luzes foram lançadas sobre certezas historicamente arraigadas, desafiando a autoridade de reis e clérigos, bem como as antigas concepções vigentes das leis que regem a natureza e o universo.

Os reflexos dessa Idade da Razão, o Iluminismo, se fizeram sentir nas várias revoluções que ecoaram no velho e no novo mundo, onde distintos povos e grupos sociais passaram a protestar contra a exploração de que se sentiam vítimas. Na América do norte, por exemplo, os impostos ingleses sobre o açúcar e o selo desencadeariam enorme prurido nas 13 colônias, e resultariam na independência americana em 1776. Na França, em 1789, a mobilização do oprimido 3º estado culminaria na revolução francesa, na decapitação do rei, e na confirmação da força que possui a plebe, parecendo reforçar a exaltação, por Philidor, das peças menos valiosas do jogo.

O Brasil também teve suas revoltas contra a exploração portuguesa, como a conhecida Inconfidência Mineira, deflagrada no mesmo ano da queda da bastilha, em protesto contra os escorjantes impostos sobre as atividades de mineração.

Tão importantes quanto os movimentos sociais e políticos, foram os progressos científicos. Decerto, o Iluminismo lançou sua claridade sobre a própria luz em si. Foi em 1780 que o químico inglês Joseph Priestley fez o primeiro experimento que levou à descoberta da fotossíntese – a conversão de energia luminosa em energia química. Anos antes, o político e cientista americano Benjamin Franklin também dera contribuições a ela em seus estudos sobre a eletricidade.

Benjamin Franklin

Benjamin Franklin

Franklin era mesmo um curioso nato. Em 1773, escreveu a um amigo sobre o efeito do óleo na água, fascinado pela observação de que mesmo uma pequena quantia de azeite se espalhava pela enorme área de um lago, e tirava a agitação causada pelo vento, tornando sua superfície lisa como um espelho.

A característica do azeite que gerava o efeito admirado por Franklin tem correlação com a organização de suas moléculas quando inseridas num meio aquoso: sua insolubilidade em água, ou hidrofobia. E ela também permite compreender a importância, muito repetida por todos, de um nutriente cujo significado quase ninguém sabe – o ômega 3.

Quantas vezes o leitor já ouviu (ou leu) as frases “Contém ômega 3”; “Livre de gordura trans”; “Não contém gordura saturada”; “Contém gordura vegetal”? Você tem alguma ideia do que sejam esses termos? Pois o post de hoje tentará explicá-los…

Tal como o colesterol, os ácidos graxos são um tipo de lipídio presente nas membranas de todas as células do nosso corpo. Há vários subtipos, mas todos se assemelham ao rústico desenho de uma cabeça com duas longas pernas, onde estas são as duas moléculas de ácido graxo, e a cabeça uma molécula com solubilidade em água (ou hidrofílica).

fosfolipido

Cada “perna” de ácido graxo é chamada de saturada quando só há ligações simples entre seus átomos, o que acontece quando ela é “hidrogenada” (átomos de hidrogênio completam as ligações que faltam). Já quando há ‘duplas ligações’ entre os átomos, o ácido graxo é dito INsaturado.

acido graxo

Na gordura saturada, as pernas tendem a permanecer mais retificadas.

Quando a 2ª situação ocorre (gordura insaturada), o(s) local(is) da(s) dupla(s) ligação(ões) pode(m) gerar um ângulo na perna (à semelhança de uma perna torta). Essa é a configuração Cis, em oposição à configuração Trans, na qual a perna se mantém também retificada (como na gordura saturada).

acido graxo4

Antes que o leitor boceje diante de tanta bioquímica, as “pernas retas” da gordura saturada e daquela com formato trans são PREJUDICIAIS às nossas membranas. E você já entenderá o porquê! Vamos antes entender o ômega 3…

Nosso corpo é capaz de fabricar quase todos os ácidos graxos de que precisamos à exceção de dois, que chamamos de “nutricionalmente essenciais”. Um deles é classificado como ômega 3 porque a 1ª dupla ligação (são várias na molécula) fica no 3º átomo de carbono.

Esse importante lipídio está presente em altas concentrações na retina e no nosso cérebro, e é encontrado em óleos de linhaça, de algumas plantas e peixes, bem como na soja. Talvez daí venha o aforismo de que “peixe deixa inteligente”.

omega3

Para finalizar, lipídios INsaturados (como os ômega 3) conferem fluidez às membranas das células, o que é essencial para o transporte de substâncias para dentro ou fora delas, já os Saturados, ou aqueles insaturados com formato trans, cujas “pernas” são mais retilíneas, REDUZEM a fluidez das membranas. Uma analogia simples ajudará a entender a razão disso.

Nos últimos meses, vimos, no país, vários protestos de manifestantes pelos mais diversos motivos. Basicamente, todos pleiteavam mais justiça diante de nossas autoridades que, historicamente, têm se locupletado com privilégios injustificáveis e nos explorado com impostos aviltantes.

Não raro, as manifestações têm descambado para violência franca, com excessos por parte de policiais e reivindicadores.

As gorduras saturada e trans, com suas “pernas  retilíneas”, tendem a se acomodar na membrana celular de maneira mais justaposta, uma ao lado da outra, à semelhança da rígida unidade militar de um pelotão policial que se desloca em bloco; e onde há pouca permeabilidade entre seus membros. Já a gordura insaturada, com seus ômega 3, e “pernas tortas”, não permite uma acomodação tão bem organizada das moléculas, o que aumenta a fluidez e mobilidade entre elas. Como um grupo heterogêneo de manifestantes no qual se infiltram vândalos e Black blocs, tornando a “causa” mais fluida; menos firme.

acido graxo2

Enquanto num caso o resultado é benéfico; no outro, claramente, tira a “alma do xadrez”

Fenilcetonúricos, contém fenilalanina

A mais recente decisão do Supremo Tribunal Federal no caso do mensalão sobre os tais embargos infringentes refletiu com exatidão a mentalidade do país: Somos um país que protela. Seja através dos incontáveis recursos do sistema jurídico, seja pela exaustiva burocracia para resolver as coisas mais simplórias, fazemos parte de uma nação de procrastinadores.

O ministro Lewandovski resumiu essa tendência, com perfeição, em uma pergunta simples durante uma de suas excitantes discussões com o ministro Joaquim Barbosa.

“Do que temos pressa?”, questionou ao ser incitado a ser menos prolixo em seus comentários em favor dos réus.

 

Bem, política à parte, o assunto que desejo abordar neste post é outro. Uma enfermidade de que muitos ouviram falar, mas sobre qual, creio, nem todos sabem muita coisa: a Fenilcetonúria!

Quem nunca leu nas latas de refrigerante a frase: “Fenilcetonúricos, contém fenilalanina”? Você sabe o que isso significa? Pois bem, vamos lá!

Essa frase nada mais é do que um aviso aos portadores dessa doença. Como se o fabricante do refrigerante dissesse: “Ei, vocês que são fenilcetonúricos, que são portadores de fenilcetonúria, esse produto contém fenilalanina! Não o bebam!”

Mas o que é fenilalanina? E por que quem tem a doença não pode ingeri-lo?

Como gosto de História, e bioquímica é um pouco maçante mesmo pra quem é da área, vou voltar um pouco no tempo a fim de contextualizar a explicação – aos revolucionários anos 1930

Em 1934, o mundo assistiu a alguns eventos importantes. Nesse ano, na Alemanha, por exemplo, as Brigadas de Segurança (SS) de Hitler esmagaram uma tentativa de golpe engendrada por Ernest Roehm – chefe das SA (Seções de Assalto) e seu ex-aliado. O episódio, conhecido como Noite dos Longos Punhais, fortaleceu o líder do partido nazista, que assumiu a presidência do país após a morte de Hindenburg naquele mesmo ano.

O Brasil, na época, também teve sua revolução. Mas, pelo contrário, com algum ganho de civilidade em certos aspectos institucionais. Foi quando, sob o governo de Getúlio Vargas, se promulgou a 2a constituição da República, que estabeleceu ou regularizou o voto direto, a Justiça do Trabalho e  Legislação Trabalhista, a extensão do voto às mulheres e o mandato presidencial de 4 anos.

Bem, ainda naquele ano, enquanto se desenrolavam esses fatos históricos, um médico norueguês chamado Asbjörn Fölling investigava a causa do retardo mental de dois irmãos que haviam nascido normais. A mãe dos pacientes relatou que notara surgir um forte odor na urina dos rapazes quando eles tinham 1 ano de idade, e o Dr. Folling, que também era bioquímico, descobriu que a substância responsável pelo odor deixava a urina com uma cor verde-oliva quando se acrescentava FeCl3 (cloreto férrico). A substância, de nome estranho, era o fenilpiruvato, um ácido (mais precisamente um cetoácido), que deu nome à doença de fenilcetonúria (o sufixo -úria se refere à perda na urina).

Mas o que, afinal, isso tem a ver com a fenilalanina?

A fenilalanina é um dos 20 tipos de aminoácidos que formam as proteínas do nosso corpo. A maior parte da fenilalanina que ingerimos (75%) é transformada em tirosina, um outro aminoácido que o organismo utiliza para fabricar os famosos hormônios da tireoide, além de transmissores cerebrais.

É justamente essa transformação que está defeituosa nos portadores da doença!

O resultado é o acúmulo de fenilalanina, e sua conversão ao fenilpiruvato.

A consequência desse defeito é o retardo mental grave e a baixa expectativa de vida (sem tratamento, a maioria morre antes dos 30 anos de idade). E a terapia é, justamente, uma alimentação pobre em fenilalanina iniciada bem cedo, logo após o nascimento.

Foi essa preocupação de diagnóstico precoce que motivou a adoção da triagem em massa da população através do conhecido ‘teste do pezinho’, que além desse, identifica outros vários distúrbios metabólicos.

Hoje, quase 80 anos depois dos acontecimentos narrados, a Alemanha é um dos países mais desenvolvidos social e economicamente do mundo. Tem instituições fortes e democracia estável.

Na visão de alguns políticos brasileiros, ao contrário, nossa democracia é mercadoria a ser comprada com o suborno de algumas mesadas.

Um estudo mostrou que o Q.I. médio de fenilcetonúricos tratados poucas semanas após o nascimento era de 93, comparado ao Q.I. de 53 daqueles cujo tratamento foi iniciado após 1 ano de idade.

O que isso nos deixa de lição?

Que ter pressa pode fazer toda a diferença!

PROVA DE QUÍMICA

A historinha que vou contar a seguir não sei se é verdadeira. Não me peeçam certeza se realmente ocorreu na FAETEC ou se o professor de química realmente se chamava Fernando. Aceitem os detalhes como licença poética, combinado?

Não sei nem mesmo o conceitos químicos aqui expostos, mas achei graça e quis compartilhar. Se alguém tiver uma resposta melhor a esta pergunta, por favor, compartilhe.

Vamos ao caso:

 Pergunta feita pelo Professor Fernando, da matéria Termodinâmica, no curso de Engenharia Química da FAETEC em sua prova final.
(Este Professor é conhecido por fazer perguntas do tipo ‘Por que os aviões voam?’)
Nos últimos exames, sua única questão nesta prova para a turma foi:
“O inferno é exotérmico ou endotérmico?
Justifique sua resposta”
Vários alunos justificaram suas opiniões baseados na Lei de Boyle ou em alguma variante da mesma.
Um aluno, entretanto, escreveu o seguinte:
‘Primeiramente, postulemos que o inferno exista e que esse é o lugar para onde vão algumas almas.
Agora postulemos que as almas existem; assim elas devem ter alguma massa e ocupam algum volume. Então um conjunto de almas também tem massa e também ocupa um certo volume. Então, a que taxa as almas estão se movendo para fora e a que taxa elas estão se movendo para dentro do inferno? Podemos assumir seguramente que, uma vez que certa alma entra no inferno, ela nunca mais sai de lá.
Logo, não há almas saindo.
Para as almas que entram no inferno, vamos dar uma olhada nas diferentes religiões que existem no mundo e no que pregam algumas delas hoje em dia. Algumas dessas religiões pregam que se você não pertencer a ela, você vai para o inferno…
Se você descumprir algum dos 10 mandamentos ou se desagradar a Deus, você vai para o inferno.
Como há mais de uma religião desse tipo e as pessoas não possuem duas religiões, podemos projetar que todas as almas vão para o inferno.
A experiência mostra que poucos acatam os mandamentos.
Com as taxas de natalidade e mortalidade do jeito que estão, podemos esperar um crescimento exponencial das almas no inferno.
Agora vamos olhar a taxa de mudança de volume no inferno.
A Lei de Boyle diz que para a temperatura e a pressão no inferno serem as mesmas, a relação entre a massa das almas e o volume do inferno deve ser constante.
Existem, então, duas opções:
 1)Se o inferno se expandir numa taxa menor do que a taxa com que as almas entram, então a temperatura e a pressão no inferno vão aumentar até ele explodir, portanto EXOTÉRMICO.
 2)Se o inferno estiver se expandindo numa taxa maior do que a entrada de almas , então a temperatura e a pressão irão baixar até que o inferno se congele, portanto ENDOTÉRMICO.
Se nós aceitarmos o que a menina mais linda da  FAETEC me disse no primeiro ano: ‘Só irei pra cama com você no dia que o inferno congelar’ e, levando-se em conta que AINDA NÃO obtive sucesso na tentativa de ter relações amorosas com ela, então a opção 2 não é verdadeira.
Sendo assim, o inferno é exotérmico.’
O aluno Thiago Faria Lima tirou o único 10 da turma.
CONCLUSÕES:
1) A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original.
2) A imaginação é muito mais importante que o conhecimento.
3) Um raciocínio lógico leva você de A a B. Imaginação leva você a qualquer lugar que você quiser.
E aí, como você responderia a esta pergunta?

Opção pela inércia: consequência da preguiça

Opção pela inércia: consequência da preguiça

Para começar, vale dizer que pessoas de bom senso sempre são, como dizia Millôr Fernandes,  contra quaisquer reformas ortográficas, cujo encaminhamento vem de cima para baixo, mesmo que este ‘cima’ seja qualificado, e principalmente quando o ‘baixo’ é que está no poder.

Antes de novas considerações, é uma situação estranha no mundo moderno que a ortografia de uma língua seja definida por meio de regras oficiais de qualquer dos poderes instituídos. No entanto, parece que o espírito legiferante típico da parte oeste da península ibérica nos deixou marcas profundas. Como gostamos de criar leis, mesmo que seja para não cumpri-las!

Desde 1911, vivemos tentativas de unificação da ortografia portuguesa, sempre, porém, com a intervenção dos governos e suas comissões oficiais. Pode-se, contudo, observar uma coincidência curiosa e que reforça a implicância com as reformas: elas normalmente aconteceram nas ditaduras ou em governos que flertam com práticas antidemocráticas, as quais visam a diminuir a liberdade de opinião e intervêm nos direitos individuais.

O pior é que quem não conhece a evolução das línguas atribui a culpa à gramática e aos gramáticos, que vivem ‘inventando moda’. Quem muda a língua é o próprio povo! Aos estudiosos, e especialmente aos filólogos, cabe, embora às vezes demorem a aceitá-las, acatar, explicar, justificar e nomear tais alterações.

O acordo de 1990, que nasceu de um impulso nacionalista do na época presidente da República José Sarney e foi alinhavado, na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), por José Aparecido de Oliveira e Antônio Houaiss entre outros, chegou ao Congresso e acabou aprovado em 1995, quando o primeiro era outra vez presidente, mas do Senado. Todavia, o governo de Fernando Henrique Cardoso deixou-o parado, talvez por não considerá-lo importante. Parece que tinha outras coisas mais importantes a preocupá-lo, como o fim da inflação, o equilíbrio econômico e a universalização do processo educacional, como disse certa vez o falecido ministro Paulo Renato.

No governo do presidente Lula, com a ideia de que o Brasil deveria ser mais valorizado na Organização das Nações Unidas (ONU), o texto foi ressuscitado e, depois de recuos na maneira estabelecida para a aprovação, quando se trocou a unanimidade pela maioria, violentando a própria semântica da palavra “acordo”, acabou sancionado, ficando cada nação com o direito de estabelecer um prazo de coexistência das regras antigas e novas, até que essas prevalecessem.

O decreto de 29 de setembro de 2008 determinou que, no nosso país, as novas regras vigeriam no primeiro dia de 2009, que as antigas ainda poderiam ser usadas até 2012 e que a Academia Brasileira de Letras (ABL) seria a responsável por dirimir dúvidas e produzir um vocabulário ortográfico oficial da língua portuguesa (VOLP).

Órgãos de imprensa rapidamente instituíram a obediência às mudanças. Na Infoglobo, tudo começou em 5 de janeiro de 2009, primeira segunda-feira do ano, não sem antes providenciarmos cursos onde era necessário. Editoras, já no ano seguinte (2010), deviam começar a imprimir seus livros de acordo com a nova ortografia, conforme recomendação do próprio Ministério da Educação. Os professores de LP atualizaram-se, e as escolas e universidades trataram do assunto com curiosidade e atenção dos alunos.

Enfim, o país de verdade se movimentou para acompanhar a necessidade das mudanças. A ABL, em parceria com a Editora Global, num belo esforço, lançou o VOLP em 19 de março de 2009. Ou seja, o Brasil real e moderno, apesar de não ter sido consultado a respeito das alterações gráficas, mesmo, às vezes, sendo contrário a elas, seguiu todo o enredo e mostrou respeito à democracia e ao espírito republicano.

O professor Evanildo Bechara, maior gramático brasileiro, escolhido guardião do ‘Acordo’, do alto das suas oito décadas de vida, não teve medo de encarar e justificar o novo, conquanto soubesse que haveria críticas de muitos lados, algumas inteligentes, outras tolas, mas ele, pacientemente, se colocou à disposição para ouvir opiniões, responder a elas, quando era possível, e anotar sugestões boas, já pensando que, viva que é, a língua exigiria aperfeiçoamentos e novas soluções, muitas apontadas em obras de bons autores, como a recente “O novo acordo ortográfico – todas as soluções” (2ª.edição), de Manoel Pinto Ribeiro.

Nós, professores de língua portuguesa, procuramos ver tudo o que ali estava, escrevemos esquemas, dicas e resenhas, fizemos observações, realizamos palestras – meu amigo Sérgio Nogueira e eu fomos a vários lugares do Brasil, a escolas, empresas, clubes e outros representantes da sociedade, além de incluirmos a “reforma” no “Soletrando”, do Luciano Huck … É… o país moderno, independentemente de ser contra ela ou a seu favor, esqueceu as divergências e se adaptou logo, embora soubesse que poderia aguardar quatro anos para fazê-lo.

Nas universidades, fez-se um grande esforço para convencer os colegas, mestres de outras disciplinas, a se engajarem na necessidade de escreverem seus materiais didáticos e avaliações na ‘nova ortografia’. E agora…

Somos apanhados meio de surpresa pela vitória da inércia, clara no pedido do Senado e no atendimento da presidência da República. É a vitória de um país preguiçoso, ao qual custou aprender meia dúzia de novidades. Um país oficial, que não conseguiu, em quatro anos, mudar algo tão simples; um país acomodado e senil – aliás, a palavra tem a mesma raiz de Senado, mas – é bom ressaltar – com carga semântica diferente daquela da época dos romanos, quando a idade era referência a algo mais sábio. Um país cuja senilidade, infelizmente, é diferente da do professor Bechara, pronto a evoluir, a estudar, a aprender.

Mas não há problemas: nada perdemos em termos nos adaptado às novas regras, e podemos nos preparar para uma nova reforma ortográfica, que, como antecipou o professor Bechara, virá, com certeza. Afinal, o binômio aprender/ensinar é a parte mais nobre da mente humana, e refletir sobre a língua e suas mudanças é algo que alimenta a inteligência e nos faz crescer, impedindo a nossa fossilização. Finalmente, é acreditar em Drummond, que nos dizia: “Ó vida futura, nós te criaremos!”

(Ozanir Roberti Martins – professor / autor da AUTOCRÍTICA)

Versão integral do texto publicado no Jornal O Globo, no dia 06/01/2013.

Piadas do Português – 1

FALA PORTUGUESA

O professor, na aula de redação, pergunta ao jovem aluno Joaquim, recém-chegado de Portugal e que ainda estava se entrosando com os colegas:

– Joaquim, você trouxe a redação?

O menino responde:

– Sim, professor. Trouxe-a, mas…

– “Tá” bom, filho… – diz o professor e completa:

– Me entrega logo!…

O portuguesinho, então, diz:

– Dou-ta, mas não sei se está como pediste. Ainda estou a acostumar-me a essa maneira estranha de organizar as frases e construí-las como o fazem no Brasil.

O professor, em seguida, dirige-se a Maicon, um moleque bem carioca:

E tu, Maicon, trouxeste a redação? Dê-ma logo.

E o garoto, na sua esperteza, diz:

“Taqui”. Mas… essa maneira de falar “pega”, profe?


Não são piadas de português, mas, sim, piadas do português, ou seja, pequenas histórias sobre a língua portuguesa, um idioma que é falado por gente tão critiva e sempre bem-humorada.